Raposa vestida de cordeiro

‘O senhor quer dizer que não há ladrões no Alentejo?’
Estive a cantar os encantos do Alentejo para com um homem inglês que me tinha oferecido um cafezinho. Acabei de lhe falar sobre o povo alentejano encantador.

‘Há ladrões no Alentejo, sim senhor,’ desfechei uma gargalhada, ‘mas não são alentejanos! Os alentejanos podem ser muitas coisas, mas não são ladrões – é um povo simples, mas é um povo puro e honesto. À primeira vista podem parecer um pouco ríspidos e com cara de poucos amigos, mas… não se deixe enganar: são boas pessoas – melhores não há!’

Desde 2004 estou a viver no Baixo Alentejo com a minha mulher, a melhor mulher do mundo, uma verdadeira alentejana. Por isso estou bastante confiante que possa dar uma opinião de bom senso sobre o Alentejo e o seu povo.

De repente – não sei porquê – lembrei-me do meu próprio vizinho que se pode chamar ‘a exceção proverbial à regra’.
‘Mas juizo! Porque sempre há pessoas que estão logo muito amáveis consigo. E quando se sinta um braço acerca dos seus ombros e se oiça as palavras “MY FRIEND!”, tenha cuidado: há predadores em todo o mundo! Alerta vermelho; é melhor fugir! Porque esse FRIEND é capaz de entrar lambendo e de sair mordendo; está provavelmente atrás do seu dinheiro ou atrás da sua esposa – e se calhar ambos.’

‘Não faz mal,’ diz o inglês, de olhar triste, ‘infelizmente já não tenho mulher, nem dinheiro – sou viúvo com um pequeno pensão do estado. Mas estou a ver o que o senhor quer dizer.’
Repentinamente absorvido em pensamentos o inglês põe a caneca vazia na mesinha entre nós dois. Depois um curto intervalo de silêncio, disse: ‘Escute lá o que me aconteceu hà várias meses…

Tive uma desgraça com o meu carro – a bomba de água tinha avariado. E não gosto nada de ir a uma oficina oficial, porque os garagistas costumam andar enganar as pessoas, não é.’
‘Por aquí não!’ afirmo, ‘O senhor pode ficar descansado! Os Armandos de Auto Ideal em Mértola não enganam ninguém.’
‘Escute, normalmente não é problema nenhum para mim,’ relativa o homem, ‘uma bomba nova custa €30, e a troca leva uma hora ao máximo. Só que…’
O homem mostrou-me as suas mãos todas torcidas.
‘…fisicamente já não sou capaz, percebe. Artrite.’
‘Ai!’
‘Por isso fiquei muito feliz quando um carro parou ao pé de mim e saiu um homem que me quis ajudar. Ele era muito simpático e amável…’
‘Ai-ai!’ Estava a chover e a fazer sol
‘Não falo nada português, mas consegui-lhe explicar que sou pensionista e não tenho dinheiro para pagar uma oficina oficial. Mas estive com sorte, porque o Fernando disse que tinha um FRIEND em Mértola…’
‘Ai-ai-ai!’
Senti um choque. Fernando? Será? Não! Não pode ser. Isso seria coincidência demais.
‘O Fernando levou o meu carro. E eu, eu fiquei à espera… Fiquei à espera durante um mês inteiro! De um trabalho de nem sequer uma hora!’
‘Ai-ai-ai-ai!’
Já sei: é ele! É mesmo ele! É, é, com certeza absoluta!
‘Afinal tinha de pagar… mais do que seiscentos euros, a pensão de um mês inteiro!’
‘Ai-ai-ai-ai-ai!’ …e a raposa a encher o fole.
‘Sim, senhor, fui mesmo enganado! E tenho a certeza que ele é alentejano!’
O Fernando é, sim senhor! A mulher dele não, mas ele é… quis dizer, mas… fiquei calado, porque o inglês nem se desconfiou que esteve a falar todo esse tempo do… meu próprio vizinho.

E como podia saber? É coincidência demais, não é.
Ou se calhar não é coincidência nenhuma, mas… fado.
Fogo! A próxima vez tenho que ter um pouquinho mais cuidado a cantar os encantos alentejanos; a próxima vez tenho que cantar um pouquito mais… conforme a música.
A próxima vez devia confessar ao inglês que Fernando é o meu vizinho. E talvez devia contá-lhe também – a fim de expliquar que tudo isto existe, tudo isto é triste, mas tudo isto é exceção no Alentejo – como esse vizinho, ainda rapaz, ficou com a alcunha Zarak.

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