Ironia tuga

Um traço de caráter intrigante é o costume aparentemente compulsivo dos portugueses de zombar do seu próprio país. Imagino que nos olhos de estrangeiros, por exemplo ingleses ou alemães, esse hábito pode parecer muito estranho. Graças ao Ricardo ‘Boca do Inferno’ Pereira, que levou a ironia a arte, acho que desvendei esse mistério…

Na realidade trata-se de orgulho no próprio país, um orgulho profundamente sentido. O desprezo aplica-se aos indivíduos corruptos que andam a perturbar a imagem internacional de um povo nobre e honroso que não pode fazer nada sobre isso. Ou, como o Ricardo o formulou: “Durante oito séculos e meio já fomos governados por loucos, por patifes, por vigaristas e por imcompetentes.

Imagino que isso até pode motivar uma recaída ao fascismo (veja o post de 9 de Agosto), como agora mesmo está a acontecer no Brasil com a intenção de votar no fascista Jair Bolsonaro: lutar contra o mal… com o mal.
Não é difícil prever que mão criminosa nunca vai acabar com mão criminosa – antes pelo contrário. É como fucking for virginity.
Mas… deixe o Brasil, que Portugal é nosso!

Deve ser realmente muito desanimador não poder fazer rigorosamente nada quando se vê, por exemplo, como finalmente dois governantes não corrompidos e sem medo – Carlos ‘Superjuiz’ Alexandre e a sua chefe Joana ‘Caso Marquês’ Vidal – são postos de lado pelos mais fortes poderes corruptos nos bastidores.
E o sistema judicial volta à ‘normalidade’. Ou continua ser, como o ex-bastinário Marinho Pinto o formula, “muito forte para com os fracos e muito fraco para com os fortes.” E o quê dizem os ricardos nobres e honrosos revoltados?
Eles dizem: Paciência!
Eles aguentam?
Aguentam, aguentam – com uma forte dose de ironia.

O funcionamento do SNS é outro alvo dessa ironia nacional.
Na ortopedia do hospital de Beja sou colocado numa cama entre dois(!) ricardos. Ou se calhar, tendo em conta a sua idade, devia chamá-los a eles: Statler e Waldorf – do show de muppet.
Eles tentam convencer-me que “tudo isso é uma grande merda. Isso não presta e aquilo não presta…”
Já várias vezes experimentei pessoalmente como alguns portugueses preferem acreditar nas fabricações e narrativas dos vizinhos, em lugar de em factos nus e crus. No entanto, eu tenho uma preferência inata pelos factos, e posso garantir da própria experiência que, se o SNS às vezes não funcione como devia, a culpa não é do pessoal assistente, enfermeiras e enfermeiros – da sua devoção, do seu apanho, do seu profissionalismo.
E, cuidado, não é fácil – por exemplo durante a noite quando o fantasma da guerra ultramar começa a voar, sentindo os seus sobreviventes fraquinhos e vulneráveis.

Não, sou convencido – e sei que o Statler e o Waldorf no fundo concordam comigo – que, se às vezes haja um problema com o funcionamento do SNS, isso tem a ver com o facto que há demasiado trabalho para poucas pessoas. E essa culpa deve-se procurar alhures – em Belém ou em São Bento.

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