Frísio alto em Baixo Alentejo

O outro dia, na Casa Costa em Mértola…
– O senhor é de onde?
– Mas porquê? Por acaso não tenho aspeto alentejano?
O Luís e o Gil atrás do balcão começavam a sorrir – já estão habituados às tais conversas.
– ‘Tá a gozar comigo? Um alentejano, com dois metros e tal!?
– Até sou um baixo alentejano, pá!
– Ahahahah! Não, o senhor deve ser alemão…

‘Pera aí!
O nosso país pode ser muito baixo – se calhar daí o nome Países Baixos – mas os habitantes são os mais altos do mundo. Por isso não consigo perceber por que razão estou sempre a ser confundido com um… alemão(?)
Gostamos tanto dos alemães como os portugueses amam os espanhois.

Sou proveniente dos Países Baixos, sim senhor, mas – para complicar as coisas – não sou holandês! Vou tentar explicar…
A Magna Frisia era uma região que seguia as costas da Bélgica, Países Baixos e Alemanha até a Dinamarca, abrangendo uma faixa litorânea de mais ou menos 60 quilómetros, maneira que os romanos chamavam o contemporâneo Mar do Norte, Mare Frisicum ou Oceanus Fresonicus. A luta contra a água do mar era uma constante. Se calhar daqui o nosso tamanho – para manter a cabeça acima da água e (mais tarde) para ser capaz de olhar por cima do dique.
O que quer que fosse, o ditado é: Deus criou o mundo, mas os frísios criaram a Frísia.

Os romanos nunca conseguiram vencer os ‘Frisii’.
No entanto, quando durante a Idade Média os saxões, à procura de Lebensraum (‘espaço para viver’ – sim, já naquela época!), migravam para a Grã Bretanha, muitos deles ficavam para trás e se estabeleceram na região onde hoje em dia são localizadas as grandes cidades dos Países Baixos: Amesterdão, Roterdão, Haia, Utreque. E é a essa região que se chama Holanda.
Isso era o fim da Magna Frisia, claro.

Desde então os frísios, um povo pacífico de agricultores e pescadores no norte dos Países Baixos e da Alemanha, têm sido alvo de ridicularização e discriminação por parte dos saxões (holandeses e alemães). Somos ‘atrasados mentais’, ‘altos e lentos’ e ‘fáceis de enganar’ – características que por acaso(!) batem certo no meu caso específico, como vocês bem sabem.

Os holandeses por exemplo não percam nenhuma oportunidade de depreciar e marginalizar a cultura frísia e a nossa língua. O frisão é a língua mais próxima do inglês, pertencendo ao grupo anglo-frisão. Enquanto o holandês pelo contrário é mais próximo do alemão.

Os frísios são um povo muito descontraido e amigável. Na rua todos se cumprimentam – ‘Goeie!’ ou ‘Moin!’ E não se admire se todos levantem a mão para cumprimentá-lo, mesmo que você passe no seu carro.
No primeiro contacto pessoal somos capazes de ficar um pouco de pé atrás, especialmente para com os tipos barulhentos – como muitas vezes os holandeses e alemães. Mas, assim que percebemos que o outro é de confiança… é para sempre, é do peito – há um atalho do coração ao coração.
A regra de ouro na Frísia é ‘In man in man, in wurd in wurd‘; no Alentejo ‘Meu dito, meu feito!’

Se calhar agora estão a perceber um pouco melhor, porque me senti logo em casa quando cheguei no Alentejo – os alentejanos são muito parecidos com os frísios, em caráter e temperamento.
Ó Pomarão, minha terra, minha gente…!
Só em tamanho diferimos um pouco, quase nada.

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2 Responses

  1. antonio gomes anacleto says:

    gostei muito de ler o seu texto e folgo muito pela amizade ao povo alentejano e por se sentir um deles,