Crianças de Pomarão

Há muitos anos uma amiga inglesa veio me visitar.
– Pomarão é um pouco arrepiante, não é.
– Porquê? Não gostas?
– Sim, gosto. Mas não se ouve nada. Às vezes se ouve um cão ladrar, mas não se ouve barulho humano – pessoas que conversam, pessoas que riem, crianças que brincam. Parece uma aldeia dum desses livros arrepiantes de Stephen King – uma aldeia sem qualquer criança.
– Não te preocupes! Se exclusão social é a pior forma de bullying entre crianças, Pomarão está mesmo cheio de crianças.
– Como?
– Ora, ouvi falar sobre uma mulher que já não fala desde há trinta anos com o seu irmão, que também vive em Pomarão. Ouvi falar sobre uma mulher que não fala com o marido desde hà vinte anos. Há uma outra mulher que já não fala com a sua irmã desde há dez anos. Olha, numa população de mais ou menos trinta almas isso é inacreditável, não é. Note bem, pessoas adultas!
– Não é possível! Entre dois adultos, há sempre um menos infantil – quero dizer, um mais adulto – que dá o primeiro passo para fazer as pazes, não é!?
– Diria-se.

Isso foi há quinze anos.
Desde então nada se mudou – as pessoas a quem me referi, ainda não falam uma com a outra.
Esperem lá… mudou-se alguma coisa – eu já cheguei a perceber como tudo isso é possível. Se uma pessoa rancorosa persiste em seu silêncio, nenhuma conversa é possível. E sem conversa não há pazes. E sem pazes não há reconciliação. É tudo tão simples.

Cheguei a perceber ainda outra coisa. Já cheguei a perceber como esse tipo de rancor costuma começar.
Por exemplo… quando se está a regar a horta todos os dias e sempre a mesma pessoa anda a perguntar “O que ‘tás fazendo?”, chega um dia que nem se dá resposta a essa pessoa, não é – pelo menos, isso é capaz de me acontecer a mim. Eu sei, eu sei que não sou nada simpático, eu sei. Nunca pretendi o ser. Mas, se uma pessoa me sempre faz as mesmas perguntas chatas “O que andas a fazer?” ou “Aonde vais?”, um dia sou capaz de perder a minha paciência – não lhe dá respeito, pois não, aonde vou.
E já está feito: um dia para o outro essa pessoa se cala. Quando se passa ao pé dela, silêncio – bom dia nem boa tarde.
Como quer – para mim, tudo bem. Tais pessoas nem valem a pena.

Mas o rancor não pára lá. Esperem aí… ‘perem!
Conhecem a atitude alentejana “Amigo do amigo, amigo meu é!”?
Muito bem! Ora, as pessoas de rancor criaram uma variação: “Meu inimigo, amigo, inimigo teu é!”
Quer dizer, aí começa a exclusão social.

Felizmente, a maioria das pessoas não se deixa intimidar e se recusa a participar dessa forma de bullying. Infelizmente também há pessoas que não têm os miolos para pensar de forma independente. As últimas, de um dia para o outro, são capazes de não responder ao meu “Bom dia!”
Como quer – para mim, tudo bem. Tais pessoas nem valem a pena.

A pessoa rancorosa até está a fazer me um favor…
Toda a minha vida tive essa mania de escolher mal os amigos. Até hoje não consigo intender porque os meus pais gastavam tanta energia pare me convencer que tinha os amigos errados, enquanto aqueles faziam tudo que podiam para confirmar o mesmo – que não prestavam para nada.

Felizmente, hoje em dia tenho ajuda das ‘crianças de Pomarão’ para que eu conhecer os amigos certos.
Como disse o outro: Conselho de inimigo, aviso do céu.

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6 Responses

  1. Anonima says:

    E há uma mulher que vai a tribunal e diz que não conhecia a irma.

    Isso não é ser criança ????

  2. Jaap Slager says:

    Dizer para um tribunal que não conhece a própria irmã, é uma mentira tão óbvia, que uma pessoa que não quer ir para os calabouços por ter cometido perjúrio, não vai dizer isso a um juiz. Pessoas tão parvas não existem – simplesmente não há. Deve ser uma mera fantasia.

    Pelo contrário, uma pessoa que diz que não assistia a uma situação (simplesmente porque não estava lá), podia bem dizer a verdade.

    É isso resposta a sua pergunta?

    • Anonymous says:

      Sei que a dona Anonima não se está a referir a ele, mas o Trump é um grande exemplo, que todo o mundo reconhece, duma criança que pratica ‘bullying’…
      Quando ex-funcionários dele se recusam a cometer perjúrio para protegê-lo, começa a espalhar mentiras ofensivas sobre eles.

  3. Lourenço says:

    Quem se esconde atrás pseudônios o que será. Falta coragem para falar mal de outras pessoas

  4. Anônima says:

    Uma pessoa que tenha tanta vergonha de dizer o nome quando liga ao 112 e prefere dizer a marca de carro.. as “crianças” não conheçam esse carro.. está tapado e ninguém o vê ..

  5. Jaap Slager says:

    Bem! Estão a ver? Não preciso dizer mais nada.